sábado, 1 de maio de 2010

ESCAPEI DA MORTE PORQUE BEYE MANDOU-ME FICAR


JOÃO da Silva recorda-se e muito bem dos últimos momentos do maliano Alioune Blondin Beye, representante da Missão de Paz das Nações Unidas em Angola, quando cumpria um périplo por cinco países africanos, no contexto de busca de paz para aquele país da CPLP.

Segundo conta o também ex-tradutor-intérprete do maliano, quase que a entrar no avião em Luanda Beye é solicitado pelo piloto para aguentar mais uns cinco minutos para acabar de limpar o avião, pois não acordara a tempo de preparar o voo, ao que o maliano respondeu que iria entrar mesmo em tais condições.
Perante a insistência do maliano, o piloto quase que empurra Beye e repete: dê me só cinco minutos.

“Fomos sentar e Beye olha para mim e pergunta-me: por que é que vais comigo?”, lembra-se João da Silva. “Porque sou o intérprete, maitre”, respondeu ele. João da Silva conta que a resposta que recebeu do Beye foi que não era necessário, uma vez que todos os presidentes com que se ia avistar falavam Francês. O guineense ainda tentou dizer que o são-tomense Miguel Trovoada não falava a língua, tendo o representante da ONU se lembrado que tivera, no passado, com o Presidente Trovoada uma conversa em Francês.

“Foi assim que fiquei em terra”, disse João da Silva, acrescentando ter ficado algo triste porque a viagem significava também algum encaixe. Beye deixou Luanda com destino a Libreville, Gabão e depois seguiu para Lomé, Togo. Aqui, o Presidente Eyadema diz não ter tempo de o receber, o que Beye não percebeu porque tudo estava acertado. Mas antes de deixar Luanda na manhã do fatídico dia, 26 de Junho de 1998, convocou uma reunião com o pessoal para dizer que a partir dali, sempre que viajasse, não deixaria os pilotos no aeroporto a sofrer, enquanto ficava no hotel a comer bem. Todos os pilotos teriam que estar no hotel onde estivesse. Perante a resposta de Eyadema, Beye leva toda a comitiva para o hotel, incluindo a tripulação, que devia ficar a vigiar o avião no aeroporto. Mas ao mesmo tempo avisa que a qualquer momento poderiam ser chamados para a audiência, o que viria a acontecer três horas depois. No fim, um ministro togolês, pergunta a Beye se viajaria para Abidjan naquela noite. Ele respondeu que sim. Tinha que dormir em Abidjan porque o esperavam a minha mulher e filhos. O ministro insistiu, mas maitre foi irredutível. O avião descola, uma hora e 10 minutos de voo de Lomé para Abidjan. Quando o aparelho se aproxima do aeroporto de Abidjan, o comando do piloto chama a torre, na altura a 10 mil pés de altitude, recebe a ordem para descer para 2500 pés e voltar a chamar. O avião, pilotado pela tripulação da ONU, inicia a descida e explode. De Bey, só apanharam um pedaço do seu bilhete de identidade. Morreram, e de que forma, todos. Eram nove elementos. Escapei porque no aeroporto de Luanda, o chefe dissera que não precisaria de mim. Se foi uma cabala, quem a urdiu não sei. Mas os indícios, o avião, os destroços, deram a entender que a coisa foi feita algures. Só pode ter sido no Togo, onde ficou sem guarda durante três a quatro horas.


FOMOS (A ONU) CORRIDOS DE ANGOLA



Beye foi substituído à frente da missão de paz da ONU em Angola pelo guineense Issa Dialló. João da Silva, que tinha sido tradutor-intérprete também da primeira representante das Nações Unidas, a britânica Margareth Anstee, manteve as funções e trabalhou, desta feita com o seu compatriota, Dialló. Este também fracassa. “Fomos corridos de Angola, depois de o Presidente ter dito que nós estávamos a brincar, pois Savimbi se armara a nossa frente”, narra João da Silva.
O Presidente angolano é muito paciente, mas foi ele quem disse que a paciência é uma grande virtude até ser vista como fraqueza.
Esta declaração do Presidente angolano era, provavelmente, em reacção a Savimbi, que considerava dos Santos um homem fraco.
“O que eu senti é que o MPLA cumpria com todos os pontos do acordo. A UNITA não. Savimbi era astuto. Assinava os acordos e depois ficava para ver o que iria acontecer na arena internacional, se o Presidente dos Santos morreria, como na altura se dizia que tinha cancro na próstata e se os Estados Unidos mudavam de posicionamento por alguma razão, etc. Usava o acordo como escudo. O presidente dos Santos percebeu isso e, por isso, disse que queria fazer a guerra para acabar com a guerra. E foi o que aconteceu”, sublinhou.

QUEM É JOÃO “RENATO” DA SILVA


EXILADO nos Estados Unidos desde 2000, na sequência da queda do regime do Presidente João Bernardo “Nino” Vieira, quando Ansumane Mané entra no Palácio, no dia 7 de Maio de 1999. Na altura João da Silva encontrava-se em Nova Iorque, ido de Angola, à espera que a ONU pagasse o dinheiro que a organização mundial o devia, após ter servido, durante cinco anos, como tradutor-intérprete do enviado especial das Nações Unidas em Angola, o maitre Alioune Blondin Beye.
Após a morte de Beye, no acidente aéreo, faz o mesmo trabalho com o substituto do maliano, Issa Dialló, seu compatriota.
Antes trabalhara durante oito anos na embaixada egípcia em Bissau, onde foi descoberto por “Nino” Vieira. Passou a ser tradutor e intérprete do falecido Presidente guineense, ate este o libertar para outros “voos”. Nesta qualidade, serviu para todo o Governo da Guiné-Bissau. Foi também tradutor-intérprete também para a OMVG (Organização para o Aproveitamento da Bacia do Rio Gâmbia) que envolve quatro países, incluindo a Guiné-Bissau.
Prestou os mesmos serviços para o Comité Inter-Estatal para a Luta contra a Seca no Sahel, que integra nove Estados e também para a CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental).
“Nino” regressa do exílio, em 2005, ganha as eleições e, em 2007, o nomeia, a partir de Nova Iorque, conselheiro especial para os Assuntos Internacionais, funções que manteve até à morte daquele em 2009.

Fonte: Moçambique para todos

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